segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Um brinde aos anjos da Roosevelt...


Eu acho a praça Roosevelt um pedaço do céu, não aquele céu de que tanto falam, não com aqueles anjinhos loirinhos e pálidos que chegam a dar medo, principalmente se for aqueles que possuem só cabeça e um par de asas... E sim um céu de pessoas reais com suas bocas sujas e suas realidades expostas. Nada a esconder. Ontem teve uma festa de confraternização para o pessoal da praça. Alguns moradores mais antigos e alguns outros recém chegados. Crianças sentadas ao lado de travestis sem nenhum problema, sem nenhum julgamento... Como num mundo perfeito... Já que o lugar é um pedaço do céu... Acho que as pessoas seriam um pouco melhores se freqüentassem com mais freqüência aquele lugar, já que teriam de dividir a mesa com pessoas que são julgadas como inferiores pela grande maioria. No que são melhores? Então saio de lá um pouco mais feliz, e com os meus passos largos e falsos vou andando pela rua das luzes, Augusta. Madrugada clara, iluminando alguns sonhos e poucas novidades. Alguns sorrisos embriagados pelo caminho. Algumas gargalhadas nervosas junto de amigos. Descemos algumas escadas até um lugar escuro, algumas mulheres dançando e pouco ar. Parei por uns instantes e sorri para mim mesmo no espelho... Sorri e constatei o quanto estou feliz por viver tudo isso ao invés de ficar sentado durante horas me lamentando por algo que nem existe. Quero todas as madrugadas. Prefiro mesmo todas as possibilidades... Quero a noite clara e alguns goles de absinto... Quero alguns sorrisos desdentados e algumas palavras de conforto. E muito abraços sinceros. Tenho tudo isso. O que mais eu poderia querer?

3 comentários:

Gorette disse...

tudo muito bom. do texto. mas me levo a pensar sobre a intenção. isto sim é importante. há quem escreva soberbamente sobre o que não tem o mínimo interesse. há quem tenha interesses passageiros. e há quem só consiga escrever bem sobre o que realmente sabe ou se importa. Há os que não conseguem decidir o que realmente é importante e esta dúvida é sinal de sabedoria, se n é a própria. Há quem diga q a convicção de q NADA É IMPORTANTE é a única que precisamos. Mas se nada é importante, n precisamos de nada, nem de qualquer convicção.
Um brinde aos anjos da Roosevelt!
(vim por causa da foto do orkut)

Henrique Mello disse...

Obrigado pela visita Gorette. Eu costumo me classificar como um homem de convicções efémeras. Pois as poucas certeza que em mim perduram, ou melhor, pertubam, eu procuro deixar nas entrelinhas do que aqui escrevo. Ou talvez as considere apenas "chaves de entrada" para algumas memórias, que para terceiros possam ser bem menos interessante do que já o são... Concordo absolutamente com cada palavra sua, apenas não sei até quando... Já que discordo de muitas das coisas que aqui postei anteriormente... Adorei sua opinião, e espero que volte. bjs

Dado disse...

Sabe o que eu acho? A praça Roosevelt é assim porque ela é uma clareira no meio da cidade. Repara em como ao redor dela, olhando lá de cima do elevado, parece que os prédios e árvores formam um paredão - sob os olhos de todo mundo. É como se ela tivesse sido feita pra ser observada. Algo como o Panopticom, de Foucault. Pode até ter funcionado por um tempo: as pessoas se escondiam ali debaixo - sim, debaixo dos olhos de todos daquele paredão de janelas, numa nudez absurda, aquela nudez de Sade, de humilhação. Mas eu descobri: a nudez ali não é de vergonha. É de orgulho. Me senti como que querendo me despir no momento que passei por ali pela primeira vez.