
com
Fabiano de Souza Ramos (O Cara)
Julia Novaes (A Garota)
Didio Perini (O Baterista)
Thiago Pinheiro (O Vocalista)
Henrique Mello (O Baixista)
Direção: Fernanda D´Umbra
Tradução: Alexandre Tenório
Direção: Musical Maurício Maas (Macalé)
Cenário: The Strummers Produções Cenográficas
Cenotécnica: Fabiano de Souza Ramos
Sonoplastia: Mário Bortolotto
Iluminação : Celso Melez
Figurino : Chris Couto
Cabelo e Maquiagem : Helaine Garcia
Ilustração: Caco Galhardo
Operação Técnica: Alessandro Bartel
Projeto Gráfico: Caio Bars
Fotos : Roberto Sousa
Produção :D´Umbra & The Strummers
ESPAÇO DOS SATYROS
Praça Roosevelt, 214
Tel. 3258.6345
Sábado – 21h
Domingo – 20h
De 17 de março a 27 de maio 2007
14/03/2007
SABADÃO, ESTRÉIA NO SATYROS I...
ÀS 21:00 H.
ROXO

De Jon Fosse, que disse uma vez:
“Quando eu era pequeno tocava música, guitarra... aos onze anos tocava durante seis ou sete horas seguidas. De um dia para o outro, parei. Acabou-se a guitarra. E comecei a escrever. O que me pareceu ser uma coisa mais séria... mas comecei a escrever tentando fazer uma espécie de música... poucas palavras, repetições, variações, silêncios... Quando, por exemplo, ouço uma peça traduzida, eu ouço a música, reconheço o ritmo na tradução, na maneira de representar. Embora não perceba o significado das palavras, reconheço tudo."
Jon Fosse
DIREÇÃO: FERNANDA D`UMBRA
02/03/2007
Grande Feira de produtos fora da validade...Acordei de um sonho absurdo, decidido a comprar meu respiro.
Encontrei de tudo.
Pessoas vendendo os cabelos para os fazerem crescer novamente.
Pessoas vendendo viagens, sem nunca terem saído do estado.
Comunistas vendendo seus “All Stares” e suas camisas da Zoomp com a fronte do Che.
Grandes comerciantes vendendo óleo nacional a preço de importado, milagres importados e com impostos.
Imagens compradas que compram os princípios deturpados de pequenos prostitutos ignorantes.
Pais vendendo filhas e filhos para viajantes órfãos.
A fé sendo vendida em fitas e frascos.
Pessoas com seus rins nas mãos, oferecendo a preço de fábrica.
A fé que você acredita, é a que todos os outros deveriam acreditar. Enfim, você acredita na única verdade.
Pessoas que nascem e morrem junto com seus ídolos de cada novela.
Pessoas que se contentam em ser apenas mais um número de celular da vivo, não vale se não for pequeno...
Antes, grande moral, grande pau. Agora, pequeno burguês marginal e seus celulares animal.
Filhos que vendem os alicerces da família atual, suas tvs de plasma, para enfim conseguirem a sobriedade em meio a essa feira de espécies plastificadas.
A única coisa que eu não achei foi meu Valium com a carinha da courtney love, edição limitada.
Vendem de tudo, menos o essencial.
Será que alguém compraria uma das minhas bolas?
Voltei a dormir.
23/02/2007Um pedido de esmola se transformou em assalto.
Gritos, empurrões...
Arma apontada...
- Passa a mochila Filho da Puta!
Enquanto eles reviravam minha mochila, embolsando tudo que eu tinha de valor...
A única coisa que me veio a cabeça foi:
- Nossa! Que fome!
O ser engraçado.
Sinto uma dificuldade terrível de ser engraçado.
De fazer as pessoas rirem.
Simplesmente rirem...
Engraçado essa sensação de querer ser engraçado no meio de uma sociedade patética...

15/02/2007
Estão podres as palavras
Estão podres as palavras – de passarem
Por sórdidas mentiras de canalhas
Que as usam ao revés como o caráter deles.
E podre de sonâmbulos os povos
Ante a maldade à solta de quem vive
A paz quotidiana da injustiça
Usá-las puras – como serão puras,
Se caem no silêncio em que os mais puros
Não sabem aonde a limpeza acaba.
E a corrupção começa? Como serão puros
Se logo a infâmia as cobre de seu cuspo?
Estão podres e com elas apodrecem o mundo
E se dissolve em lama a criação do homem
Que só persiste em todos livremente
Onde as palavras fiquem como torre
Erguidas sexo de homem entre o céu e a terra.
(Jorge de Sena)
11/02/2007
Agente tava começando a tocar legal
Tipo
Tava começando a ficar bom
já já agente vai poder se apresentar
(Jon Fosse)
07/01/2007
Retrospectiva 2006
29/11/2006
A Saída
Veementemente ele viveu procurando uma porta.
Procurando um caminho, uma saída de emergência.
Sua vida transbordava beleza e fartura.
Sua vida transbordava.
Seus olhos estavam cansados, mas seu corpo exigia movimentos.
Seus olhos estavam embaçados e seu corpo implorava movimentos.
Procurou alguém que lhe ensinasse ou o empurrasse para fora.
Procurou resgatar lembranças escondidas, na vazia e escura sala da memória.
Passou anos procurando a saída...
Quando ele finalmente encontrou uma porta.
Correu para alcançá-la.
Mas já era tarde
Morreu ali, sem ultrapassá-la.
Morreu do lado de fora.
11/11/2006
O Baile
...era um dia chuvoso de inverno na grande cidade, ela usava um vestido de rendas amarelas ou amareladas, estava sentada em uma poltrona rasgada de frente a um aquecedor elétrico, de onde olhava para o telefone como se estivesse esperando um telefonema. Seus olhos pareciam aflitos e esperançosos. No velho rádio tocava uma música baixa e lenta, parecida com as músicas de Dinah Washington ou Nina Simone.
Seu apartamento era um tanto que mal conservado, possuía algumas marcas de bolor nas paredes já descascadas pelo tempo e alguns bibelôs espalhados pelo chão de taco também descascado. Vivia sozinha por muito tempo e já estava acostumada com o freqüente silêncio perturbador daquele lugar, não fosse por alguns cachorros abandonados ou alguns arruaceiros que passavam esporadicamente por aquela rua suja e mal iluminada. Alguém começou a gritar no apartamento vizinho, ela se levantou lentamente e buscou um copo de água, pegou alguns comprimidos e com as mãos levemente tremulas os levou a boca. Sentou-se novamente na velha poltrona e adormeceu...
Acordou duas horas mais tarde, já de madrugada, e olhando para os lados esticou os braços de uma forma quase mecânica pegando um pequeno toco de cigarro em um cinzeiro, sem acendê-lo levou-o a boca, por um momento ouviu passos na calçada, e mais do que depressa foi até o quarto onde novamente penteou os cabelos e passou um pouco mais do perfume francês que ganhara do... Retornou a poltrona e ali ficou até adormecer...
Acordou no outro dia com algumas dores no corpo, tomou um pouco da água do copo da noite anterior com mais alguns comprimidos. Podiam-se escutar algumas crianças gritando na rua, ela levantou-se lentamente escorando em alguns objetos e foi até a janela onde abriu um pequeno vão na cortina, deixando um pouco da luz do dia entrar. Dirigiu-se ao quarto onde se despiu cuidadosamente e vestiu um velho roupão. Voltou para a poltrona e estaticamente olhou para o pequeno vão da cortina por onde passava agora um pequeno facho de luz do sol. Permaneceu ali por horas... Novamente ouviram-se gritos no apartamento vizinho, ela se levantou e pegou um pequeno e amarelado papel que estava sob um dos bibelôs, e de maneira empolgada ela o leu, beijou-o e o guardou novamente sob o delicado objeto. Os gritos cessaram, ela virou o disco na vitrola já ligada e dançou sozinha por alguns instantes no centro da sala. Perdeu o fôlego e sentou-se novamente na velha poltrona onde depois de alguns instantes adormeceu.
Acordou duas horas depois com os gritos do apartamento vizinho, o facho de luz não mais do sol e sim do poste de iluminação da silenciosa rua adentrava o agora escuro apartamento. Ela levantou-se apressadamente olhando no velho relógio e dirigiu-se para o quarto onde abriu o velho armário de roupas, jogou alguns vestidos na cama e olhando no espelho experimentou um a um, escolheu o mesmo da noite passada, vestiu-o e cantarolando deu em sua nuca algumas baforadas do velho frasco vazio de perfume francês que ganhara do... Ela arrumou os cabelos e se dirigiu até a velha poltrona rasgada de frente ao aquecedor elétrico, de onde olhava para o telefone como se estivesse esperando um telefonema. Seus olhos pareciam aflitos e esperançosos. No velho rádio tocava uma música baixa e lenta, parecida com as músicas de Dinah Washington ou Nina Simone...
09/11/2006
Alter
Estou sonhando, eu receberei um cheque pelo correio toda semana no qual eu possa confiar. Estou parado em uma vitrina cheia de obras, escutando jazz, o mar avançando sobre mim, tento combatê-lo esvaziando garrafas e atirando-as com força. As janelas são altas com venezianas azuis e a vidraça leve e transparente. Cachorros tentam me abocanhar, mas ao tentarem, seus dentes se dissolvem. Escuto coisas lindas sobre tragédias e mitos, reviso todas as músicas e falas em minha cabeça. Será que... Não, eu prefiro que não...
De repente acordo, abro a janela, e decido voltar a viver... Eu sempre soube como continuar... Sempre olhando para frente e crescendo apaixonadamente. Enfim nasci e cresci em um lar de dificuldades, por isso mereço o que essa merda de mundo tem de melhor. Mas primeiro tenho de arrumar essa bagunça.

06/11/2006
Um grande musical
Eu estava aqui pensando com minhas bolinhas de champagne.
No como eu gostaria que a vida fosse um grande musical.
Com direito a trilhas e Eartha Kitt.
Dançaríamos cantando na chuva, ou no sol.
E tanto tristes ou felizes, sapatearíamos sobre os problemas.
Como eu gostaria que a vida fosse um grande musical.
Em lindos jardins de gardênia.
Rodopiaríamos, entre as flores por horas.
Choraríamos flores por ano.
Seriamos como gatos sem dono.
Pulando de telhado a telhado.
Faríamos grandes espetáculos, até um último suspiro nos afogar.
E ao invés de andar pelas ruas, dançaríamos.
E se alguém tentar nos fazer mal.
Seriam transformadas em pequenos suspiros de açúcar em meio à chuva espessa.
Então se dissolveriam lentamente, sem causar nenhuma alteração na cena.
E depois de um tempo, retornariam a cena como flor, uma linda flor cantante.
Que fizesse a alegria de amantes.
Ah...Como eu gostaria que á vida fosse um grande musical!
Com suaves cores perfumadas.
E ao invés de falar, cantaríamos.
Nos dirigiríamos a todos com música.
Perguntas cantadas.
Respostas cantadas.
Cantadas.
E quando chegasse a hora de apagarmos.
Seriamos carregados suavemente para o alto.
E as pessoas que aqui ficassem, nos salvariam com palmas.
E quando estivéssemos bem alto.
Seriamos jogados para baixo.
E nosso velho e cansado corpo, se transformaria em uma linda chuva de estrelas.
E a música tocaria mais alto por um momento.
Até que lentamente as luzes se apagariam para dar início a um novo musical...
ZIP-AH-DIH-DAH-DAH-DAY
28/10/2006
Despedida de uma esperança.
Mais um ciclo se fecha, quando penso na grande obra baseada na grande obra de Marquês de Sade, “Os 120 dias de Sodoma”, além de me preencher em muitos sentidos, também me fez ser gritos. Eis uma peça que deveria ser assistida por todos, pela sua transparência sem receios ou interesses. Tudo às claras, tudo lindamente iluminado, por mais triste e negra que fosse a realidade iluminada. Eu não tenho dúvida nenhuma de que uma peça como essa deveria - agora falando como cidadão – ser necessidade e ultilidade pública, obrigatória para qualquer indivíduo. É uma pena que muitos não tiveram a oportunidade de ver algo tão belo e tão iluminador, é uma pena que muitos não a assistiram como tal. Enfim, eu me despeço deste trabalho magnífico e bem realizado, sem a certeza de que houve mudanças, mas com a plena certeza de que fiz minha parte...

27/10/2006
Brasileiros acordai-vos se quiserdes...
Hoje assistindo ao jornal me deparei com uma triste cena. Centenas de pessoas guerreavam com policiais na porta de um estádio de futebol. A imagem me remeteu aos grandes protestos em busca de melhores condições, liberdade de expressão entre outras. Pedras voavam entre balas de borracha e cassetes. Pessoas gritavam gritos de revolta entre crianças e velhos. Só que ao invés de faixas e músicas exigindo melhoras, os protestos eram regados à ignorância e leviandade.
Pessoas perdendo a voz gritando marchinhas fúteis e imprecisas. Por um instante me lembrei da frase do grande marquês,“Franceses mais um esforço se quereis ser republicanos!”.
Brasileiros, menos leviandade e ignorância se quiserem ser respeitados!
19/10/2006
Amanheci na cidade das dores...
Amanheci na cidade das dores olhei pra min e suei minhas vontades tão escaladas e entrelaçadas por min, lanterna de vaga-lumes o que deseja neste tão gastado dia? A minha alegria escapou o meu sorriso murchou de tanta dor, à vontade minha! Em teu rio meu barco se encontrou gritei pra ti e tudo parou! Falei tolices e meninice de minha reles historia vil, olhei pros seus olhos cor de anil!
Anoiteci na cidade entre dores, olhei pra ti e suaram minhas angustias tão entrelaçadas em nós, lanterna que gera escuridão, o que deseja nesta tão feia linda noite?A minha tristeza se instalou em seu sorriso que exala dor, a vontade sua! Em meu rio teu barco se perdeu, gritei para mim, que sou deus! Gritei desejos e perversões em teu céu da boca, deixei de lado sua meninice e me afoguei na meiguice.
Nos teus desejos meus dentes se perderam, na sua saúde minha noite escureceu e fomos no soneto alegre e bucólico de Caio Fernando de Abreu! Tantas vezes em luas sem fim! Toquei trompete, clarinete, violino um lirismo louco e sem fim! Já no meu traço se mistura com o seu! E no terraço vi o meu jardim! Não sei sujeira e nem canseira a me embalar nos versos loucos de tanta dor que grita por min!
Gritando por ti perdi a voz, na minha doença te fiz saudável, olhando no espelho me fiz cego, para não ver uma vida reles, então me embreei na doçura dos versos de uma doce alma como Cecília Meireles, tentei cantar, mas não tinha o dó, minha voz rouca permaneceu sem dó, por dó? Não sei, só sei que perdi meu sofá...
Fui eu quem te roubou! De tanta formosura do seus de seus dedos escapou! Não vê que a imagem engana? Como em um lindo conto de Sagarana!Falei tolices no seu nariz, pintei breguices em seu quarto! Nunca fui tão feliz assim em um dia vil! Nunca tão poeta assim! Peguei-te de tal modo que fui cantar em matines! Mandei poetas saírem às ruas e dançar pra você, SÓ pra você, pra você ver o tamanho do furto do seu maldito quarto imundo!
Eu me deixei ser roubado! Esperando ser esmagado, como um pobre diabo tentando ser bom. Um santo amado que ao invés de calado se tornou pecador. Ah que dor eu sinto, quando tento sobreviver... Um dia quem sabe eu minto pra mim mesmo pra te ver. Voltamos para o gênesis da história. Deixa-me ficar aqui parado, calado sem fazer parte de inúteis memórias. Deixa-me morrer vivendo. Tenha piedade de mim.
Dê-me veneno...
Dou! Enveneno-te com a minha poesia, te alimento com a minha angustia, lhe trato como um rato, e não te aplico anestesias! Falei das flores para ti gozar, mas sem dores não vale a pena! Da tua dor nasce meu prazer, eterno marasmo de seus dias tolos e tenebrosos que tu passa a viver! Lancei meu veneno nas suas rosadas feridas! Matei sua nuance gelada e a mão amiga! Maltrate como um doce cão! E em suas lagrimas beije a minha mão!
Henrique Mello e David Cejkinski
Sexo e Poesia
É verdade que na maldade, todo mundo não é santo
O acalanto mais querido do seu amigo, pode te levar as melhores festas!
Já não sei da incerteza urbana, agora moro em uma ilha utópica aonde vou poetizar orgasmos...
Entre tantas multidões de couros, peles, pêlos e vértebras, me aluguei em teu lugar
Aonde tanto desejei estar...
Sem entretanto, muito menos as incertezas vão brilhar neste lindo mar...
Amar...
Loucamente, feito um louco alucinado, hesitado, fervorosamente de tantas ilusão caóticas...
Vi o apocalipse brilhar em seu modo indecente de me pegar
Bater, puxar...
Gargalhar e gostar, deste mar, deste inferno de bem estar....
Ao pegar seu beijos me senti com o tal desejo....
Louco desejo de desenfrear...
Amar...
Poeticamente em seu dentes enfeitei o meu desejo, louco alucinado de prazer...
Correr...
Para chegar ao extremo de poesia em nossa ilha...
Mirar...
Montanhas, corpos, desejo, suor, cheiro, pêlos muitos pêlos para enfeitar...
Poetizar
Sexo real delicadeza nacional, do arroz e feijão de cada dia, é preciso mudar!
Bater, correr, puxar, meter, molhar todos os céus possíveis...
Quando vi tanta luxuria em meio a santidade, revelei a maldade...
Ocasionalmente sexual fiz luxurias em seus diversos mundos
Imundo...
Vi seus olhos cor de louça em meus lábios de papel..
Em nossa torre de babel....
São línguas, e cheiros a se entrelaçar neste louco carrossel.
Girei, girei experimentei todos os gostos e desgostos..
Gostei de teus olhares, seus penares de prazer...
Morrer, doer...
E finalmente, gozar.
David Cejkinski 19-06-06
17/10/2006Por um momento eu me sinto, só por um momento...
Tudo se torna tão pequeno aqui de cima.
As pessoas e as pessoas.
Seus problemas e suas soluções.
Seus vícios e preocupações.
Seus gritos e lamentações.
Suas fomes e suas vidas.
Nem sangue há em suas feridas.
Seus medos...
Seus sonhos comprados.
Seus corpos sarados.
Seus pensamentos predeterminados.
Por um momento eu me sinto um deus.
Eu adoraria continuar aqui em cima.
Mas o problema é que eu não tenho uma cobertura...
14/10/2006Hoje eu implorei pra ser mais um.
Para me perder entre os muitos que estão ao meu redor.
Implorei para que as pessoas não me enxergassem.
Não me percebessem simplesmente. Abaixei a cabeça e fingi por uns instantes que não existia...
Senti uma forte vontade de gritar, em meio aquele cheiro de gordura.
Eu senti vontade de gritar.
As pessoas se comem vivas para conseguir um sorriso amarelo.
E eu prefiro ficar com minha boca banguela.
11/10/2006O calote. O jovem advogado voltava para a casa do seu trabalho, carregando com dificuldade algumas sacolas promocionais carregadas de livros, roupas e o resto de seu almoço. Parou em frente a uma dessas igrejas de nome estranho e janelas do tipo padrão, onde podia-se ouvir uma lenta e harmoniosa canção, porém um pouco melancólica. Era perto de uma avenida qualquer de uma cidade também qualquer. Ficou parado em frente a grande porta por alguns instantes, quase que hipnotizado pela lenta canção, até que um vento frio, esses de começo de inverno, o acordou daquele estado hipnótico e o fez continuar em seu regresso. O advogado caminhava às pressas, pelas ruas uma tanto vazias, onde via-se somente algumas travestis a espera de pessoas solitárias ou apenas divertidas.
Quando o jovem advogado estava a apenas três quadras de seu apartamento, um senhor, já velho e grisalho, vestindo um avental velho e sujo, o esperava ansioso na frente de um açougue. O jovem advogado reconhecendo o velho homem de avental, não exitou em atravessar com pressa a rua escura, fugindo enfim, de algo que aparentemente seria um tanto que inconveniente e impróprio para aquele momento. Apertou os passos e quase que correndo virou à esquina da escura rua sem olhar para trás.
Quando se viu enfim, a apenas duas quadras de sua casa, se viu na obrigação de fazer um caminho um pouco mais longo e demorado, para não se encontrar com o também inconveniente e desagradável senhor Manuel, dono do estacionamento de onde o jovem advogado não tirava seu carro há meses, por estar em débito, sendo sofridamente obrigado a seguir seus longos caminhos andando.
No outro dia de manhã, o relógio de som agudo despertava no pequeno apartamento, apartamento esse, que o jovem advogado todos os dias solitariamente acordava. Ele colocou as roupas apressadamente para mais um dia de trabalho, quando se deu conta que na tv estava passando um programa qualquer de um canal qualquer, mas típico da programação de domingo, ele apenas sorriu e voltou para cama. Acordou às 13h52min, abriu a dispensa e não encontrou nada além de sal e um pouco de fubá, sendo forçosamente obrigado a ir ao mercado e assim ter de esquematizar um pequeno mapa com indicações das ruas e lugares que lhe restavam créditos e acessos. Calculando a distancia de sua casa ao supermercado, ele levaria aproximadamente 15 minutos no percurso, agora se via na necessidade de fazer 1 hora a mais para chegar ao mesmo destino, pois além de estar em débito no açougue e no estacionamento, também estava na perfumaria do final da rua, na venda, na pequena loja de roupas e na farmácia.
O jovem advogado já se encontrava muito cansado de ter de alongar seus caminhos e de ter de acordar com três horas de antecedência todas às manhãs para ir ao trabalho, trabalho que ficava a apenas quatro quadras de sua casa. Seus caminhos cada vez maiores e seus créditos cada vez menores, tinha sempre de encontrar novos lugares para enfim se debitar, pois seu salário mensal era depositado em banco, maldito banco era aquele, que à meses lhe arrancava seus merecidos punhados de dinheiro.
Quando não se via mais em condições de sair de sua própria casa, o pobre advogado começou a se disfarçar, mas infelizmente seu plano foi funcional por apenas algumas semanas, pois seus credores o identificaram pelos seus sapatos gastos.
O infeliz advogado já não saia de sua casa à semanas, pois seus caminhos tinham-se acabado, como aqueles labirintos de revista de pintar. Sobreviveu de Delivery por alguns dias, até que lhe arrancaram o único serviço necessário para sua sobrevivência naquele momento, a linha telefônica.
Via-se cada vez mais em uma situação degradante, obrigado a subir andar por andar, porta por porta, pedindo, implorando e mendigando sobras de alimento e água.
Alguns meses depois o pobre advogado já não saia mais de seu apartamento, e assim fez até sua morte. Podia-se sentir um odor insuportável de carne pútrida pelo velho prédio de arquitetura dos anos 30. Há pessoas que juram até hoje, que o cheiro podre daquele desgraçado ser, se torna cada vez mais insuportável a cada inverno.14/09/2006A chuva sempre traz coisas novas...
Hoje eu estava conversando com uma velha senhora, muito magra e de olhar já esbranquiçado, cansado e profundo, porém não deixava de ser sereno e muito carinhoso.
Ela me contou um pouco de sua vida. Disse-me que mesmo tendo tais dificuldades, foi muito feliz e muito viva. Contou-me de alguns abusos que sofreu na infância, de uma irmã que morrera queimada na sua frente e de outra que segundo ela, nascera com defeito nas partes baixas. Singelamente abaixou a cabeça por uns instantes e com os olhos cheios de água sorriu. Entre um assunto triste e outro, ela sabiamente intercalava algumas coisinhas engraçadas. Acho que para não me entristecer, sei lá. Disse-me sorrindo que mesmo depois da morte de seu marido, jamais passou batom, ou usou sutien... Muitas vezes motivo de suas dolorosas surras.
Teve uma porção de filhos e entre uma gravidez e outra fazia promessas para santos, para que os mesmos não tivessem o destino de seus irmãos. Quase que sofridamente me contou de seus avós, de seus pais e de sua vida arrastada por uma enxada de roçar.
Respirou fundo, ficou em silêncio por alguns instantes e sorrindo me ofereceu uma maça.
Depois de muita insistência peguei a maçã e me despedi com um beijo em seu rosto e um pedido de benção.
Acho que agora eu entendo um pouco o motivo dela não sair de casa a anos, o porquê dela sorrir tanto, seus cinco tipos de calmantes diários e o seu medo da chuva...
13/09/2006Quem tudo vê nada fazO velho está feliz por estar morrendo
Pois já viu de tudo
Viu o povo ser esmagado
Censurado, calado...
Viu homens matarem por fé
Viu um bigode quadrado
Matar pessoa aos montes
Sem levantar nenhum pé
Pessoas que se arrastaram
Deixando pedaços no chão
Pessoas morrerem sorrindo
Não de alegria
Informações nunca existentes
Eu não sabia!
Pessoas saírem da vida e entrarem
Para história
Terra que se alimenta
De inexistentes memórias
Minha terra no momento
Não possui mais palmeiras
Somente muitos abutres
Que cobrem toda sujeira
Com a nossa embolorada
E amada bandeira
Só uma coisa não viu
Em um determinado momento
Ele fechou os olhos
E sentiu um enorme vazio
Nunca existiu, não resistiu.
13/09/2006A CARIDADE
Em uma dessas campanhas de natal, André, um homem bom e caridoso, se dirigiu a uma destas empresas de correspondência, para enfim escolher um pedido ao Papai Noel.
- Quero a carta mais velha que vocês tiverem… - Pediu André ao atendente.
- Tenho aqui uma carta da campanha passada, estávamos limpando o depósito quando a encontramos embaixo de algumas caixas… - Respondeu o atendente entregando-lhe a carta.
André pegou a carta, agradeceu e se retirou. Chegando a sua casa, abriu a carta velha e suja, e tirou de dentro uma folha de papel já muito amarelada e de uma caligrafia infantil, cuja mesma continha a seguinte solicitação:
Querido Papai Noel:
Eu gostaria muito que nesse ano o senhor atendesse meu pedido. Estou desesperada. Precisamos urgentemente de um colchão para meu avô, pois ele está com uma grave doença que o deixa impossibilitado. Minha mãe trabalha todos os dias na casa do Senhor Matias como doméstica, enquanto eu tomo conta de meus irmãos e de meu avô. Ela ganha muito pouco para sustentar a casa, e não tem condições de comprar o tão necessitado colchão.
PS: Se sobrar algum dinheiro, me traga uma boneca… Beijos
Marianne
André comprou no mesmo dia o que a pobre menina lhe pediu, além de uma bela fantasia de Papai Noel. No outro dia de manhã, André foi recebido com grande felicidade e alvoroço, pelas quatro crianças que brincavam despreocupadamente no quintal da humilde casa. A menina pegou-o pela mão, e o levando para dentro da casa disse-lhe:
- Eu sabia que um dia o senhor viria! Eu sabia!
Ele deu uma grande gargalhada, entrou no escuro quarto, onde se podia avistar em cima de uma velha cama que possuía no lugar de um colchão, alguns velhos trapos sujos de sangue, que provavelmente seria relativo às muitas feridas causadas pelo rijo extrado de madeira, um homem velho, desdentado e muito magro. André percebeu que o pobre homem movimentava os lábios de maneira sutil, como quem está rezando.
- Pode parar de pedir meu caro amigo, pois o seu desejo se realizou! – exclamou penosamente nosso caridoso Papai Noel.
O velho homem abriu lentamente os olhos, sorriu carinhosamente e disse com um pouco de dificuldade:
- Sinto uma imensa felicidade pelo colchão que o homem me trouxe, mas não rezo por ele, e sim para que tenhamos um mundo melhor.
Baseado em uma história real.
Dedico ao meu pai...
11/09/2006

Pra ser sincero, eu...
02/09/2006...dor eterna dor...- Quantos anos?
- Eu tenho 8 anos.
- Você é feliz?
- (não responde)
- Você sabe que isso que ele fazia era errado?
- Não.
- Sua mãe sabia do que ele fazia com você?
- Sim, ela sabia.
- E o que dizia ela?
- Ela mandava eu ficar quieta, senão teriamos que morar na rua, então ela se mataria.
- Você gosta deles?
- Sim eu os amo muito?

02/09/2006
Morte em vida.
Eu imóvel, parado
Eu imóvel, calado
Eu imóvel, cansado
Eu imóvel, despreparado
Eu imóvel, sem telhado
Eu imóvel, cegado
Eu imóvel, desesperado
Desesperado, resolvi me movimentar
Mas já haviam cortado minhas pernas e meus braços.
Quando resolvi gritar
Já haviam cortado minha língua e minha garganta.
Quando resolvi viver
Me limitaram a vida.
IMAGEM REFLETIDA EM MIM .
A água da chuva subindo
o sol está à meus pés
minha sombra em minha cabeça
minhas lágrimas se confundem com meu suor
que goteja sangue
meus cabelos permanecem de pé
De cabeça pra baixo?
Eu ou o mundo?
Para o meu grande amigo Edu....
02/09/2006Clareira sem luz... Eles querem que nos calemos.
Por isso fartam nossas bocas com comida?
Não querem ouvir gritos.
Por isso nos ensinaram a rezar calados?
Querem que sejamos felizes.
Por isso nos dão confetes e serpentinas?
Querem que sejamos pacientes e esperançosos.
Por isso são tão demorados?
Querem que não vejamos.
Por isso enchem nossos olhos com bundas?
De certo querem que aprendamos.
A ser ideais sem ideais.
28/08/2006Caminhando e sonhando por uma estrada verde e amarela... Eu vi uma pobre mulher com fome
Tentando vender seu velho e enrugado corpo
Para um pobre homem que além de fome não tinha nome.
Eu vi pessoas sorrindo de alegria
Enquanto um pobre palhaço bebia
Em cima de uma ponte
Esperando criar coragem em sua melancolia
Para se encontrar com o Caronte.
Eu vi uma caneta transbordando tinta
Quando não havia papel.
Eu vi uma linda bailarina
Que jamais dançou além de um bordel.
Vi uma prostituta virgem.
E vi um homem chorando
Tentando vender sua própria filha
Que mostrava os dentes ao seu comando.
Eu vi ricos ficarem pobres
E pobres ficarem pobres.
Pobre dos pobres que estão mais pobres.
Eu vi homens cruéis
Serem chamados de nobres.
Eu vi pessoas que gritavam em silêncio.
Eu vejo o silêncio em algumas vozes.
Vi pessoas se fazendo de vítimas
Para não serem chamadas de algozes.
Vi pessoas dizerem tanto
E se calaram em ações.
Vi lágrimas não rolarem
Por estarem secos os corações.
Vi todas essa coisas um dia no passado.
Por isso eu grito.
Não vejo mais nada porque tapei meus olhos?
Ou porque omito?
